O Desafio do Bicampeonato
Conquistar uma Copa Libertadores é uma façanha monumental. Conseguir duas — em anos consecutivos — é entrar em um panteão de privilégio restrito. Quando o Palmeiras iniciou a Copa Libertadores de 2021, tinha um objetivo cristalino: não era apenas participar, era reinar. Abel Ferreira e seus jogadores sabiam que estavam sendo observados. Todos queriam derrotar o campeão em vigência.
A história do futebol continental não oferecia muitos exemplos de bicampeonatos consecutivos na era moderna. O Boca Juniors havia conquistado em 2000 e 2001. Nenhum outro clube havia replicado esse feito recentemente. O Palmeiras estava entrando em um território onde apenas gigantes da história tinham estado.
Mas havia confiança. Aquela equipe que havia conquistado a Libertadores em janeiro sob condições adversas — estádio vazio, pandemia, pressão do inesperado — agora tinha experiência. Weverton sabia como vencer finais. Gustavo Gómez sabia como defender em momentos críticos. Raphael Veiga havia crescido exponencialmente. Rony havia aprendido quando atacar.
A Campanha: Consolidação da Supremacia
A Copa Libertadores de 2021 começou em fevereiro, e o Palmeiras entrou com uma clareza tática ainda maior do que no ano anterior. Abel Ferreira havia tido um ano inteiro para aprofundar sua filosofia. Os jogadores não apenas executavam suas ideias; respiravam suas ideias. O futebol do Palmeiras era reconhecível: pressão alta, transições rápidas, qualidade técnica no ataque.
Nas fases iniciais, o Palmeiras foi devastador. O time não deixava espaço para adversários respirarem. Era futebol de sufocamento, mas elegante. Era agressão com inteligência. Cada jogador sabia seu papel. Felipe Melo no meio-campo era um destruidor, cortando as linhas de passe dos adversários. Patrick de Paula acelerava a saída. As laterais pressionavam para frente.
O Palmeiras eliminou Saint-Étienne na Pré-Libertadores. Depois, nas fases de grupos e eliminatórias, mostrou progressão contínua. Havia aprendizados do ano anterior sendo aplicados. Havia maturidade. Havia fome.
Nas semifinais contra o Atlético Mineiro, o Palmeiras enfrentou um time que também era forte, que também acreditava em suas chances. Mas o Palmeiras prevaleceu. Não foi apenas por talento; foi por consistência de ideias. Abel Ferreira havia construído uma máquina.
A Final em Montevidéu: O Destino Chamando Deyverson
A final da Copa Libertadores de 2021 seria disputada no Estádio Centenário de Montevidéu, contra o Flamengo — outro gigante brasileiro que também buscava seu terceiro título continental. O estádio dessa vez tinha torcida, embora ainda com restrições. Era mais próximo do normal, embora o normal continuava distante.
A data: 27 de novembro de 2021. Novembro. O futebol sul-americano já estava em fase avançada. O Palmeiras havia mantido sua intensidade o ano todo. Agora viria a prova final.
O Flamengo era favorito em alguns setores. Tinha talento ofensivo abundante. Gabigol, o centroavante, era um finalizador de precisão. Mas o Palmeiras havia vencido finais antes. Havia aprendido. Havia se preparado.
Os primeiros quarenta e cinco minutos foram de intriga. O Flamengo abriu o placar através de Gabigol — um gol que poderia ter virado narrativa de derrota. Mas o Palmeiras não desabou. Conhecia sua força. Continuou em seu padrão de jogo. Pressionava, criava, procurava.
Então, ainda no primeiro tempo, Raphael Veiga igualou. O jovem meia que havia crescido tanto sob Abel Ferreira marcava um gol de extrema importância. A partida estava empatada. O script ainda não havia sido escrito.
O Destino de Deyverson no Tempo Extra
O segundo tempo se desenrolou sem novos gols. Novamente, como em janeiro contra o Santos, seria necessário tempo extra. E no tempo extra, como em janeiro, viria a dramaticidade.
Deyverson, o centroavante polêmico, errático, às vezes invisível, mas sempre capaz de aparecer nos momentos que mais importavam, recebeu uma bola em uma posição duvidosa. Gustavo Gómez, em um passe longo da defesa, havia encontrado o caminho. Deyverson estava ali, no lugar certo, no momento certo — como era sua sina.
Ele finalizou. A bola desviou. E em 99 minutos — 99 minutos! — a bola ultrapassou a linha de meta. Diego Alves, o goleiro do Flamengo, vira a bola entrar como em um pesadelo. Aquele era o gol que cristalizaria a história.
Deyverson correu em celebração, braços levantados para o céu. Seus companheiros o abraçavam. Naquela noite em Montevidéu, naquele estádio que havia visto tantas histórias do futebol sul-americano, o Palmeiras havia conquistado seu segundo título continental consecutivo. E havia feito com estilo, com maestria, com consistência.
O Bicampeonato e Seu Significado Histórico
Quando o apito final soou, quando os jogadores do Palmeiras levantaram aquela taça em Montevidéu, uma realidade se cristalizou: o Palmeiras era oficialmente uma força invencível da América do Sul. Não era um acidente. Não era sorte. Era supremacia.
O bicampeonato consecutivo colocava o Palmeiras em um panteão muito específico. Apenas Boca Juniors (2000-2001) havia feito isso na era moderna. Agora o Palmeiras havia igualado esse feito. Mas havia diferença: o Palmeiras o havia feito em circunstâncias desafiadoras — uma pandemia, um técnico novo, reconstrução constante.
Abel Ferreira havia vencido duas Libertadores em menos de dois anos. Estava criando uma dinástica. Os jogadores que o cercavam — Weverton, Gustavo Gómez, Felipe Melo, Raphael Veiga, Rony — estavam entrando para a história.
Mas havia também Deyverson. Aquele centroavante que durante a temporada havia sido criticado, que havia tomado amarelos desnecessários, que tinha números ofensivos mediocres. Mas em 99 minutos de uma final, em Montevidéu, ele havia imortalizado seu nome. Ele era agora um herói da história palmeirense.
A Confirmação de Uma Era
O bicampeonato Libertadores confirmava o que havia sido inicialmente suspeita em janeiro de 2021: o Palmeiras havia entrado em uma nova era. Não era apenas uma taça ocasional. Era um projeto. Era uma filosofia implementada com precisão por um técnico que entendia o futebol de verdade.
Abel Ferreira não era um técnico que ganhava por acaso. Ele era um técnico que ganhava porque construía estruturas, porque ensinava princípios, porque criava identidade. Seus jogadores não apenas sabiam o que fazer em cada situação; compreendiam por que fazer.
A Copa Libertadores de 2021 foi a confirmação dessa verdade. O Palmeiras não apenas havia defendido seu título; havia o conquistado novamente. E havia feito contra o Flamengo, um adversário de qualidade inegável.
Vinte e dois anos após aquela noite em 1999 quando Rivaldo havia conquistado a primeira Libertadores, vinte e dois meses após a noite gloriosa de janeiro de 2021, o Palmeiras estava novamente no topo. Mas diferentemente de 1999, onde havia sido uma vitória isolada seguida de anos de seca continental, agora havia clareza: isso era apenas o começo. Havia mais a vir.
Os torcedores palmeirenses em São Paulo, em todo Brasil, no mundo, comemoram não apenas um gol em Montevidéu. Comemoram a confirmação de que seu clube era verdadeiramente grande. Que seu clube podia vencer. Que seu clube havia encontrado uma fórmula de sucesso. E essa fórmula, aquela combinação de talento, tática e determinação, seguiria produzindo glória nos anos vindouros.
No Estádio Centenário naquela noite, quando o apito final soou, ninguém duvidava: o Palmeiras era o rei da América do Sul. E essa coroa, ganho duas vezes seguidas, apenas começava a brilhar.