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Copa Libertadores 2020: A Redenção de Abel Ferreira e o Nascimento de uma Era
Foto: Cesar Greco / Palmeiras

Copa Libertadores 2020: A Redenção de Abel Ferreira e o Nascimento de uma Era

Em janeiro de 2021, o Palmeiras derrotou o Santos no Maracanã e conquistou sua segunda Copa Libertadores, marcando o início de uma era dourada sob o comando de Abel Ferreira.

O Arrivo de um Visionário

Abel Ferreira chegou ao Palmeiras em outubro de 2020, em circunstâncias que viriam a se revelar como providenciais. O clube havia trocado seu técnico anterior e buscava uma renovação. O português, com sua filosofia de jogo ofensivo, seu rigor tático e sua capacidade de desenvolvimento de jogadores, era exatamente o que o Palmeiras precisava. Ninguém poderia imaginar naquele momento que estávamos presenciando o nascimento de uma era.

A Copa Libertadores de 2020 havia começado meses antes, quando Vanderlei Luxemburgo ainda era o técnico. O Palmeiras havia participado das fases iniciais, mas havia irregularidade. O clube precisava de uma transformação. Quando Abel Ferreira assumiu o comando, herdou uma equipe que conhecia o caminho da Libertadores, mas precisava de direcionamento claro e confiança renovada.

O português trouxe consigo uma visão renovadora. Sua abordagem enfatizava o futebol ofensivo, mas com solidez defensiva. Ele valorizava o trabalho em equipe, a pressão alta (o gegenpressing), e a construção de um projeto a longo prazo. Naquele mês de outubro, ninguém imaginava que em menos de 120 dias, ele estaria levantando a taça da Copa Libertadores.

O Elenco Que Ficaria Para a História

Para construir um time campeão, Abel Ferreira contava com jogadores que já estavam no Palmeiras e que ele absorveu rapidamente em sua filosofia. Weverton, o goleiro, era um muro entre os três paus — um goleiro que não apenas defendia, mas iniciava o jogo com seus passes. Na defesa, Gustavo Gómez, o paraguaio de presença imponente, era o coração da zaga, um líder natural que emanava confiança.

Luan, a jovem joia da defesa palmeirense, aprendia a cada jogo. Renan oferecia solidez. A dupla de laterais — Viña na esquerda e Mayke na direita — foi crucial para o ataque desenrolado do Palmeiras. Eles não eram apenas defensores; eram criadores de jogo, homens que podiam cruzar e criar oportunidades.

O meio de campo era onde a magia acontecia. Felipe Melo, o experiente e batalhador meia, era o maestro defensivo que permitia o Palmeiras atacar com segurança. Patrick de Paula, jovem e talentoso, trazia dynamismo. Raphael Veiga, ainda em formação, mostrava flashes de brilho. Ao lado deles, Zé Rafael oferecia trabalhador anônimo que permite que os mais talentosos brilhem.

No ataque, o Palmeiras tinha opções. Rony, o extremo veloz e desequilibrador, era capaz de criar caos nas defesas adversárias. Dudu na outra ponta oferecia dinamismo e inteligência. Luiz Adriano, experiente e de leitura de jogo aguçada, era o centroavante. Mas havia também Breno Lopes, um jovem goleador que teria seu momento de destino na final.

A Campanha: A Ascensão Meteórica

O que impressionou na campanha do Palmeiras na Copa Libertadores de 2020 foi a progressão clara do rendimento. Nos primeiros jogos sob o comando de Abel Ferreira, havia uma equipe aprendendo novas ideias, mas com determinação visível. Conforme as semanas passavam, a equipe internalizava a filosofia do técnico. O futebol ficava mais fluidado, mais organizado, mais perigoso.

O Palmeiras eliminou o San Lorenzo nas oitavas-de-final com autoridade, depois o Delfín nas quartas. Cada vitória vinha acompanhada de melhorias técnicas visíveis. A pressão alta do Palmeiras recuperava a bola mais rapidamente. A transição de defesa para ataque era mais rápida. Os passes eram mais precisos.

Nas semifinais, o Palmeiras eliminou o River Plate, um adversário altamente respeitado. Essa vitória foi especialmente significativa porque mostrava que o Palmeiras não apenas podia vencer, mas podia vencer grandes equipes. O time de Abel Ferreira havia encontrado sua identidade. Era uma equipe que atacava sem perder a compactação defensiva, que era criativa mas disciplinada.

O ambiente no clube mudara. Os jogadores acreditavam. A torcida acreditava. Havia uma sensação no ar de que algo grande estava acontecendo, de que este era o momento em que o Palmeiras ressurgiria como força continental.

A Final no Maracanã: Destino em Tempos de Pandemia

A final da Copa Libertadores de 2020 seria disputada no Maracanã contra o Santos, outro grande do futebol brasileiro. Mas havia algo surreal sobre isso tudo: a pandemia de COVID-19 tornava impossível o caos usual de uma final de Libertadores. O estádio seria vazio. Sessenta mil lugares vazios. O maior templo do futebol brasileiro, silencioso.

Não era a final que ninguém imaginava, mas era a final que tínhamos. A data: 30 de janeiro de 2021. O Palmeiras entrou em campo com o objetivo claro: a Copa Libertadores. O Santos, também um grande clube com história de Libertadores, buscava seu terceiro título continental.

Os noventa minutos regulamentares foram intensos mas não produtivos em gols. Era um jogo tenso, como todos os clássicos Brasil são. Ambas as equipes criaram oportunidades, mas nenhuma conseguiu converter. A defesa do Palmeiras sob comando de Gustavo Gómez foi sólida. O Santos também oferecia resistência.

Então veio o tempo extra. E no tempo extra, veio o destino. Breno Lopes, o jovem centroavante que vinha vindo do banco em vários jogos da Libertadores, recebeu a bola em uma posição periférica. Em um instante de genialidade — ou talvez apenas de sobrevivência — ele chutou a bola. O goleiro do Santos não conseguiu impedir. A bola entrou.

Foi assim que o Palmeiras conquistou sua segunda Copa Libertadores. Não foi com dramaticidade, foi com simplicidade bruta. Um gol. Um jovem jogador. Um momento que mudaria vidas.

A Comoção e o Abraço à História

Quando aquele gol foi marcado, quando Breno Lopes correu em celebração e seus companheiros o abraçaram, torcedores de todo Brasil se levantaram de seus sofás. Aquele gol no Maracanã vazio teve um impacto que transcendeu o futebol. Era esperança em tempos de desesperança. Era uma confirmação de que a vida continuava, de que havia ainda razões para celebrar.

Weverton, o goleiro, caiu de joelhos em oração. Gustavo Gómez corria em celebração. Os jogadores abraçavam-se como se tivessem conquistado o mundo. E naquele momento, para eles, para o Palmeiras e para toda a torcida verde e branca, era exatamente assim. O mundo havia sido conquistado.

No Maracanã vazio, ecoava a voz de Abel Ferreira dando instruções, as vozes dos jogadores gritando em celebração. Era surreal, era distópico, mas era perfeito. Em um mundo onde tudo parecia estar caindo aos pedaços, o Palmeiras tinha sua Libertadores de volta.

O Nascimento de Uma Era

O que vinte e um de janeiro de 2021 representou foi mais do que uma taça continental. Representou o nascimento de uma era. Abel Ferreira havia chegado em outubro, e em menos de quatro meses, havia conquistado o maior prêmio do futebol sul-americano. Ele havia chegado a um clube que acreditava em seus métodos e sua visão, e em tempo recorde, havia transformado aquele acreditar em realidade.

Depois de vinte e dois anos desde aquela noite gloriosa em 1999 quando Rivaldo e Zinho haviam conquistado a primeira Libertadores do clube, o Palmeiras estava novamente em primeiro lugar. E havia uma diferença crucial: Abel Ferreira não estava aqui apenas para uma taça. Ele estava aqui para construir uma dinastia.

Os jogadores que ergueram aquela taça — Weverton, Gustavo Gómez, Felipe Melo, Raphael Veiga, Rony, Breno Lopes — não eram apenas vencedores de uma competição. Eram os alicerces de algo maior que estava nascendo. O Palmeiras entrou em uma nova era.

A Copa Libertadores de 2020, conquistada em janeiro de 2021, será para sempre lembrada não apenas como um título, mas como o marcador de um ponto de inflexão. Foi quando o Palmeiras deixou a melancolia pós-1999 e entrou em uma nova fase de dominação. Foi quando Abel Ferreira não apenas chegou ao Palmeiras, mas o transformou em uma força invencível da América do Sul.

E naquele Maracanã vazio, em um momento onde o futebol era uma das poucas coisas que trazia alegria, o Palmeiras escreveu um novo capítulo. Um capítulo que teria sequências — sequências gloriosas — mas que começou com aquele gol de Breno Lopes e com a redenção de um português que havia chegado em outubro e em janeiro já era lenda.

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